Blog22 de setembro de 2026

ICD-10-CM/PCS versão 2027: obrigatória a 1 de outubro de 2026

A Circular Normativa n.º 03/2026 da ACSS fixa a versão 2027 para episódios com primeira codificação a partir de 1 de outubro. O que muda e o que fazer até lá.

A partir de 1 de outubro de 2026, a versão 2027 da ICD-10-CM/PCS é obrigatória na codificação clínica de episódios com data de primeira codificação igual ou superior a essa data. É o que determina a Circular Normativa n.º 03/2026 da ACSS, datada de 9 de setembro e dirigida a ULS, IPO, PPP e entidades convencionadas ou com acordos com o SNS. A versão já está disponível no SIMH.

Este artigo resume o que a circular diz, o que muda na classificação e o que uma instituição precisa de ter feito antes dessa data.

O critério é a data da primeira codificação

Não é a data de alta nem a data de admissão. A circular é explícita: «é obrigatória a utilização desta versão na codificação clínica de episódios com data de primeira codificação igual ou superior a 01 de outubro 2026».

Isto tem uma consequência prática. Durante meses vão coexistir duas versões em produção: episódios codificados pela primeira vez antes de 1 de outubro ficam na versão 2026; os que forem codificados pela primeira vez a partir dessa data usam a 2027. Um episódio com alta em setembro mas codificado em outubro entra na versão nova. Qualquer sistema que trate a versão da classificação como uma constante, e não como um atributo do episódio, vai errar num dos dois lados.

O que muda em números

A circular resume a dimensão da actualização:

Novos códigos válidosNovos agregadoresEliminados válidosEliminados agregadores
Diagnósticos ICD-10-CM19063306
Procedimentos ICD-10-PCS1012381

Nos procedimentos, os 38 códigos eliminados correspondem à migração de códigos da Secção X (New Technology) para tabelas permanentes, assinalados como «Deleted» no addendum.

Onde estão os novos códigos de diagnóstico

Cinco capítulos concentram a maior parte dos 190 novos códigos ICD-10-CM:

  • Lesões e intoxicações (60). Novas categorias e subcategorias para efeitos tóxicos de diversos produtos industriais e de um fármaco de uso veterinário.
  • Gravidez, parto e puerpério (44). Novas categorias para localizações de gravidez ectópica e códigos para gravidez com síndrome de gémeo evanescente.
  • Sistema musculoesquelético (31). Código para a síndrome VEXAS, novas categorias para fasceíte plantar e osteomielite, expansão da categoria M72.2.
  • Factores com influência na saúde (16). Códigos para IMC ≤ 18,4 e IMC 18,5 a 19,9 em adultos, exposição a riscos especificados e história pessoal de infecção por C. difficile.
  • Sistema circulatório (9). Expansão da I42.0 (miocardiopatia dilatada) para especificar causa genética, da I42.8 para causa arrítmica, e códigos para arritmias específicas como a síndrome de Brugada.

O resto distribui-se por neoplasias secundárias de órgãos respiratórios com localização especificada, trombastenia de Glanzmann, hipoglicémia pós-procedimento com instrução «use additional» para o nível, sinusite de origem odontogénica, micetoma pulmonar, estenose pilórica hipertrófica na criança, doença pélvica, fibrose hepática moderada, complicações de procedimentos na mama, síndromes genéticas como a de Lynch e nível anómalo de gadolínio no sangue.

As alterações às guidelines pesam mais do que os códigos

Um código novo só entra quando o caso aparece. Uma guideline alterada muda a forma de codificar casos que já existem todos os dias. A circular destaca cinco:

GuidelineO que muda
I.C.9.a.1 Hypertension with heart diseaseReforça o uso de um código da categoria I11 sempre que coexistem hipertensão e uma ou mais das condições listadas
I.C.9.a.10 Hypertensive crisisAcrescenta I1A.0 (resistant hypertension) à instrução «code also»
I.C.17 Malformações congénitas e anomalias cromossómicasPassa a incluir «genetic disorders» em todas as referências
I.C.21.c.4 Family history of exposure to diethylstilbestrolAcrescenta Z84.A à lista de códigos de história do capítulo 21
I.C.21.c.13 Personal risk factor of exposure to diethylstilbestrolEspecifica quando se aplica Z91.B (exposição in utero)

A primeira é a que mais importa em volume. Hipertensão com doença cardíaca é uma combinação frequente no internamento, e a sequenciação entre I11 e as condições associadas decide diagnósticos secundários que contam para a severidade e, por essa via, para o GDH.

Procedimentos: o essencial por secção

  • Secção 0, Medical & Surgical. Divisão das válvulas aórtica e mitral (028), dispositivos personalizados de fusão vertebral (0RG, 0SG) e drenagem com active mechanical clearance (0W9).
  • Secção 3, Administration. Administração de altas doses de imunoglobulina (302) e novos qualificadores de agentes químicos e enzimáticos (3E0).
  • Secção 5A, Assistance & Performance. Assistência circulatória com bomba de impulsor em modo contínuo (5A0527D) e classificação da duração da filtração urinária (5A1xxx).
  • Secção B, Imaging. Novos códigos para angiografia fluoresceínica do olho (B85xxx).
  • Secção X, New Technology. Novas tabelas e códigos para procedimentos assistidos por computador, dispositivos emergentes e aplicações cardiovasculares, articulares, cutâneas, hepatobiliares, pancreáticas e fisiológicas.

Na Secção X há um detalhe que vale registar: a nova tabela XEZ, para computer-aided guidance e computer-aided assessment com IA e aprendizagem automática. Pela primeira vez a classificação de procedimentos reserva uma tabela própria para intervenções em que um sistema de IA participa. É o tipo de sinal que costuma anteceder exigências de registo.

Sistemas: o que está feito e o que é responsabilidade da instituição

Nos aplicativos centrais com registo de códigos ICD, nomeadamente SONHO, SClínico e SIGLIC, a versão 2027 foi implementada em português. Nos aplicativos alternativos a estes sistemas, a circular é clara: a implementação é da responsabilidade de cada instituição e deve ocorrer em sintonia com a disponibilização nos sistemas centrais.

Quem usa um agrupador, um sistema de auditoria interna ou uma ferramenta de apoio à codificação fora dos sistemas centrais tem de confirmar que a versão 2027 está carregada até 1 de outubro.

O que ter feito até 1 de outubro

  1. Ler a circular e descarregar os ficheiros editáveis da página da ACSS. São quatro páginas; os anexos são a lista completa.
  2. Confirmar a versão em cada aplicativo não central. Agrupador, ferramentas de auditoria, integrações com o SIMH.
  3. Prever a coexistência das duas versões no fluxo de trabalho e nos sistemas, com a versão a ser decidida pela data da primeira codificação do episódio.
  4. Formar a equipa nas cinco guidelines alteradas, com prioridade para hipertensão com doença cardíaca, pela frequência.
  5. Rever tudo o que é medido contra a classificação. Conjuntos de referência, taxas de erro, indicadores de qualidade de codificação. Uma métrica calibrada na versão 2026 deixa de ser representativa do que vai ser aceite a partir de outubro.

Do nosso lado, estamos a rever os nossos conjuntos de teste contra a versão 2027 e a tratar a versão da classificação como um atributo do episódio, determinado pela data da primeira codificação, para que os dois períodos convivam sem ambiguidade.

Fontes